quinta-feira, 14 de maio de 2009

Este tiquet nom tem nome

Por sinal, haverá quem se diga, são horas de mudar o título deste blogue. Pois não, caros ressabidos, porque ainda que sejamos (que não tenhamos) um corpo, uma coisa é o corpo e outra o pensamento.

No news is good news!

Uma reflexão incisiva (de inciso): acaba de atravessar o meu pensamento a explicação de por que não escrevia no blogue desde há tanto tempo. Porque, além de não ter tempo, a quem lhe vai interessar passar o tempo diante do computador para ler estes comentários tão insonsos e banais?

Leituras para lutar contra a alienação

Qu'est-ce qu'on devient ? Que mo diga alguém, o sujeito não pode ser objeto das suas próprias observações. Ou diria o Juanito, que va a ser de nosotros? Quanto tempo passou já desde que voltei? O que fiz em todo esse tempo, além de trabalhar? Digo, é só um ano da minha vida, mas acho que um ano é muito! Não quero desperdiçar sequer um dia!

Uma das razões para voltar a Barcelona era prosseguir os estudos de árabe. Infelizmente os livros acabaram por cair da carreta com tantos buracos e fochas como há no caminho. Outra razão era a vida nocturna, mas quantas vezes saí desde que voltei? De que serve assim tanta oferta noctámbula? Os amigos estão muitos longe, outros ocupados, ocupado sempre eu. Então, pois, objetivos cumpridos? Diria que não... Há, porém, outras circunstâncias (profissionais) que a minha volta para Barcelona propiciou e que eu não previra, mas como circunstância não contemplada talvez mereça a pena também considerar no futuro com um pouco mais de perspectiva e à luz dos novos acontecimentos.

Porém, apesar de tudo, ainda tenho algo de tempo para ler, incrivelmente. Os livros acumulam-se numa pilha e não os vou lendo pela ordem em que me chegam, mas pelo menos consigo resistir-me a renunciar à única atividade que nestes momentos me faz humano, ou talvez as únicas duas: os livros e a música. A música não a conto, porque de maneira algo irresponsável pela minha parte sempre é uma prioridade por encima de coisas a priori mais importantes, e sempre a tenho presente de maneira contínua no devir dos meus dias, até ao ponto de saturação. No entanto, a abrumadora quantidade de material a que tenho acesso, a maneira como se me apresenta e a minha maneira de consumi-lo merecem menção à parte noutro momento. Teria razão meu pai? Que feliz pode ser uma pessoa com apenas um feixe de fitas TDK... 

É sobre leituras que queria falar mesmo nesta mensagem. O bom dos livros, à diferença das pessoas (dalgumas pessoas) e dum curso de árabe, é que um pode colhê-los e deixá-los quando quiser, continuar aos poucos, lê-los em qualquer ordem que seja, sem que eles peçam explicações. Há nestes momentos dois romances encetados e em stand-by, postos de côté, ou seja, de costado, quer dizer, que me acompanham e me vigiam desde a improvisada mesinha de noite feita com duas caixas, e que esperam pacientemente a sua vez sem protestarem por outros livros talvez menos interessantes saltarem na fila: El molinero aullador, de Arto Paasilinna, e El comité de la muerte, de Noah Gordon, como sempre, em espanhol, para desespero meu pela minha condição de versioriginalfílico. 

Enfim, continuo, e chego já, finalmente, aos livros que motivavam esta mensagem. Os quatro estão ligados (há algum outro que não o esteja?). Primeiro foi o livro Palestina als nostres ulls, presente da Maria de Becerreá (obrigado, guapa!), que contem testemunhos de cooperantes catalães e do resto de Espanha sobre o que viram, aprenderam e viviram em carne própria durante a sua estada em vários campos de refugiados de Palestina. Que o mundo o saiba.

Depois, por recomendação da Maggie O'Connell (que também me presenteia com livros, mas nunca os que me recomenda, obrigado Maria! :)), comecei, já há tempos, o Fin de siglo en Palestina, que agora levou Javi para Ferrol, de Miguel-Anxo Murado, a quem tenho pendente escutar na RTVG por recomendação duma pessoa que conheci na galeria Sargadelos de Barcelona (obrigado, Helena). Buf, isto parece uma lista de agradecimentos! 

Não sei se a raiz de (ou, por inquietação política e planetária, de maneira concomitante com) o estudo da língua árabe, tenho certo interesse polo mundo islâmico, e coincidindo com a nossa visita a Granada e à Vermelha, andou baixo os meus olhos durante uns dias Historia de la España islámica, escrito de maneira bastante acessível para leigos por um historiador estrangeiro, Montgomery Watt (para ler sobre a história de Espanha, sempre melhor os estrangeiros). Sempre me perdo um pouco nos detalhes dos livros de história (os anos, os nomes dos sucessivos monarcas, etc.) mas pelo menos serviu-me para entender melhor comoe por que se produziu a expansão do islão (de acordo com este autor, a coisa era muito mais materialista do que nos fazem crer), a relação do Califato de Córdoba com o reinos cristãos peninsulares e com o resto do mundo muçulmano, bem como o papel dos almorávides e dos almohades no Al-Andalus, de tudo o qual tinha muito pouca noção (e sigo tengo, é claro, mas menos). 

Agora, também recomendado pela amiga do doutor Fleishman (obrigado, Maria!), acabo de começar Otra idea de Galicia, também de Miguel-Anxo Murado. Acabo de ler a parte em que se fala do reino suevo medieval da Galiza (ou Astúries, ou Galicia e Asturias, etc.), nascido no s. V e que duraria até a chegada dos visigodos. O reino da Galiza praticamente não existiu na historiografia espanhola, reencarnado no Reino de León, mas cita o autor diversos historiadores ou cronistas árabes para quem a parte cristã da Península, que chegava até à Rioja, e o reino da Galiza da altura (جليقية, ou Jaliqia) eram a mesma coisa. Interessante, por fim fontes concretas (algum dia poderei lê-las por mim próprio). 

Como diz o Murado, não é que a Galiza não tenha história, mas é que Espanha tem demasiada... 

Contudo, a explicação de Murado sobre por que os árabes não conquistaram a Galiza parece confusa à vista da exposição da mecánica da expansão do islão do livro de Montgomery (os árabes só detiveram a sua conquista em direção ao norte, na França e na Península, quando encontraram alguém duro de roer que os réditos de derrotar não compensassem o esforço e o investimento): "No es que no pudiesen hacerlo, sino que no tuvieron el menor interés", diz o Murado, porque, diz, os árabes tinham interesse em ocupar só os territórios do reino visigodo de Toledo porque se consideravam continuadores dele. Não fica a coisa muito clara, mas seguirei pesquisando. 

Até aqui foi tudo por hoje. Fiquem vocês bem, e desfrutem a vida lá fora, mas não demasiado!